TEORIA I


        FACULDADE DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DA MATA SUL - FAMASUL


 

PLANO DE ENSINO DE TEORIA DA LITERATURA I
Professor Admmauro Gommes

Carga horária: 60h
2º Semestre/2018
081-9291.1071        admmaurogommes@hotmail.com         professordeliteratura.blogspot.com.br


EMENTA: Introdução aos estudos literários, natureza e função da literatura, o poema e os gêneros, 
dentro de uma visão histórica e contemporânea.

EIXO TEMÁTICO: Conhecimento da realidade sócio-político-cultural e educacional e as novas 
modalidades docentes de Língua Portuguesa.

1. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 
1.1. Conceito de literatura: evolução semântica do vocábulo literatura, impossibilidade de se 
estabelecer um conceito incontroverso; Linguagem literária e linguagem não-literária;
1.2. Funções da literatura
1.3. Formas literárias: poema/prosa.
1.4. Introdução ao estudo científico da obra literária: Teoria, Crítica, Análise e História da Literatura.
1.5. A perspectiva intrínseca e extrínseca no estudo da obra literária
1.6. Gêneros literários: Visão histórica e concepção moderna, estudo das formas clássicas da poesia 
(Épica) Concepções contemporâneas de gêneros literários: Lírica, Narrativa, Dramática e Ensaística.
1.7. Versificação.
1.8. A poética contemporânea: Concepção estética e formal, conceito de modernidade poética, o 
Neoclassicismo na poesia atual, poesia e vanguarda e poesia não-verbal.

2. COMPETÊNCIAS E HABILIDADES
2.1. Distinguir as características dos diversos textos literários.
2.2. Reconhecer a estrutura do poema.
2.3. Emitir parecer sobre o poema clássico e o contemporâneo.
2.4. Articular o conhecimento literário com outros níveis de escrita.
2.5. Comparar as diversas maneiras que o texto literário tem de sugerir e interpretar situações da vida prática e seu relacionamento com temas diversos.

3. SITUAÇÃO DIDÁTICA 
3.1. Discussão sobre a importância de texto literário enquanto arte de sugestão e forma de expressar a realidade através da imaginação.
3.2. Consulta às diversas fontes de informação: artigos, monografias, teses, enciclopédias, internet, bem  como a outros textos nas diversas linguagens, entrevistas a poetas e populares.
3.3. Compreensão dos movimentos sociais geradores de correntes literárias através de textos 
      históricos.
3.4. Entrevista com poetas, em sala de aula.
3.5. A intertextualidade a partir da literatura
3.6. Discussão sobre o fazer poético e vocação poética
3.7. Participação do texto literário na escola contemporânea
3.8. Envolvimento da literatura popular com o meio universitário

4. RECURSOS: pincel para quadro branco, livros, resumos de livros, artigos, retroprojetor e  
utilização de blogs e sites

5. AVALIAÇÃO
Atividades realizadas em sala de aula
Leitura orientada (20 horas: Poemas de Vinicius de Moraes)
Participação de forma interativa
Trabalhos de pesquisa individual e em grupo, levando-se em conta a correta argumentação, domínio de conceitos, vocabulário específico e uso adequado da língua culta.

6. REFERÊNCIAS
GOMMES, Admmauro. O perfil do professor de literatura e as estratégias de produção
textual. Xexéu (PE): Ciranda, 2011.
______________. Intradução poética. Recife: Bagaço, 2008.
LYRA, Pedro. Conceito de Poesia. São Paulo: Ática, 1996.
MOISÉS, Massaud. A Análise literária. 16ª ed. São Paulo: Cultrix, 2007.
POUND, Ezra. Abc da literatura. São Paulo: Cultrix, 1997.
TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Villa Rica, 11ª Edição, 1996.                                      

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
ARISTÓTELES, Horácio e Longino. A poética Clássica. São Paulo: Cultrix, 2004.
GOLDSTEIN, Norma. Análise do Poema. Série Ponto por Ponto. São Paulo: Ática, 1988.
MORAES, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das letras, 1994.
NIETO, Ramón. O Ofício de Escrever. São Paulo: Angra, 2001.
SOARES, Angélica. Gêneros Literários. São Paulo: Ática, 1989.
ABAURRE. Maria Luiza M. Literatura Brasileira: tempos, leitores e leituras. São Paulo: Moderna, 2005.

PROCURA DA POESIA
                      Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,

não indagues. Não percas tempo em mentir.

Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família

desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada

no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras.

Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.




1.1. O QUE É LITERATURA
1. Ensino das primeiras letras
2. Rubrica: literatura.  Uso estético da linguagem escrita; arte literária
3. Rubrica: literatura. Conjunto de obras literárias de reconhecido valor estético, pertencentes a um país, época, gênero etc.
4. Conjunto das obras científicas, filosóficas etc., sobre um determinado assunto, matéria ou questão; bibliografia
5. Ofício, trabalho do profissional de letras
6. Conjunto de escritores, poetas etc. que atuam no mundo das letras, numa determinada sociedade; tertúlia
7. Disciplina escolar composta de estudos literários
8. Boletim, folheto, conjunto de instruções etc. que acompanham certos produtos, para orientar o cliente ou o comprador sobre seu emprego
9. Palavreado vazio, de caráter inautêntico, artificial ou superficial

Definir literatura não é muito fácil na medida em que a própria palavra (originada do Latim littera = letra) sofreu uma evolução semântica, fazendo com que o termo adquirisse diferentes sentidos com o passar do tempo. Hoje em dia, quando se fala em literatura, admite-se que há uma literatura lato sensu e uma literatura stricto sensu, e os estudos literários abordam particularmente a última.

Incluída no ramo das artes, a literatura usa a linguagem como matéria-prima, assim como a escultura usa o bronze e a pedra, a pintura usa as cores e as tintas e a música usa os sons; assim sendo, podemos dizer que a literatura é uma arte verbal que se vale de uma linguagem literária como meio de expressão. São próprias dessa linguagem a polissemia, a ficcionalidade e o estranhamento que é capaz de causar no leitor.
Disponível em: http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/estudos/index.html       

DEFINIÇÃO DE LITERATURA
Podemos começar com a seguinte pergunta: O que é a literatura e qual é a melhor maneira de defini-la? A resposta não é óbvia, em absoluto, porquanto o termo pode ser usado em muitos sentidos diferentes. Pode significar qualquer coisa escrita em verso ou em prosa. Pode significar unicamente aquelas obras em que se revestem de um certo mérito. Ou pode referir-se à mera verborragia: "tudo o mais é literatura". Para os nossos propósitos, será preferível começar por defini-la de um modo tão amplo e neutro quanto possível, simplesmente, como uma arte verbal; isto é, a literatura pertence, tradicionalmente, ao domínio das artes, em contraste com as ciências ou o conhecimento prático, e o seu meio de expressão é a palavra, em contraste com os sinais visuais da pintura e escultura ou os sons musicais.
            A Natureza Verbal da Literatura
Quando dizemos que o seu meio de expressão é a palavra, ultrapassamos o significado etimológico de literatura, que deriva do latim littera - "letra" - e parece referir-se, portanto, de modo primordial, à palavra escrita ou impressa. Contudo, muitas civilizações, desde a grega antiga à escandinava, francesa e inglesa, produziram importantes tradições orais. Inclusive, extensos poemas narrativos como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, as sagas islandesas e o Beowulf anglo-saxônico foram, presumivelmente, cantados ou entoados por rapsodos e bardos profissionais, séculos antes de terem sido passados a escrito. Para que possa abranger essas e outras obras verbais, é útil considerar a literatura uma arte verbal, lato sensu, deixando em aberto a questão sobre se as palavras são escritas ou faladas.
O fato de a literatura ter uma base verbal suscita numerosos problemas. A palavra escrita é diferente do signo visual do desenho, tal como a palavra falada é diferente dos sons produzidos pela música, dado que consubstancia significado num sentido especial. Esse significado verbal constitui a importância da literatura, pois nem mesmo um poema lindamente impresso pode competir, como obra puramente visual, com uma grande pintura e um poema requintadamente recitado tampouco pode rivalizar, com som, com uma bela peça musical. Dito por outras palavras, não existem dicionários que definam o significado geralmente aceito de um triângulo vermelho ou de um acorde musical, como os há para definir palavras como poltrona, alucinação, e divino. Cada uma dessas palavras possui um significado abstrato, "intelectual"; e, até certo ponto, isso é válido para todas as palavras. Não obstante, como a língua é um meio de expressão e comunicação muito complexo, a mesma palavra pode ter vários significados distintos: nas frases "umas férias divinas" e "amor divino", o mesmo adjetivo sugere duas experiências muito dessemelhantes. Assim, deparamo-nos sempre com a questão de apurar o que é, exatamente, que as palavras num poema ou num conto significam, na realidade.

DANZIGER, Marlies K. e JOHNSON W. Stacy. Introdução ao estudo crítico da literatura. São Paulo: Cultrix, 1974. Tradução de Álvaro Cabral, com a colaboração de Catarina T. Feldmann (p. 9-14, 18-21 e 25-26)
Disponível em: http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/danziger/index.html



                
1.2. FUNÇÕES DA LITERATURA
TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Villa Rica, 11ª Edição, 1996.
Evasão,
Literatura como compromisso,
Ânsia de imortalidade,
Lúdico e
Sinfronismo


Artigo
NATUREZA E FUNÇÃO DA LITERATURA
Eliane Maria de Oliveira GIACON
PG/ASSIS/UEMS/FINAN

(...) Para Culler (2000) “ a literatura é uma instituição paradoxal porque criar literatura é escrever de acordo com fórmulas já existentes” (p. 47), fórmulas estas que segundo Eagleton (2001, p. 2) “intensificam a linguagem comum” sugerindo algo diferente da linguagem usual. Então se a linguagem é intensificada, logo são necessários mecanismo para dizer o que é e para que serve a literatura, portanto para estuda literatura é necessário explicar sua “ origem, natureza e função” (SOUZA, 2000, p. 9).
Em linhas gerais Souza diz: “a origem da literatura é o ensinamento dos deuses; sua natureza consiste em ser uma narrativa dotada de especial poder de encantamento sua função é reconstituir as ações dos heróis. (2000. p. 10)” de tal forma que seja possível dividir estes dois conceitos finais de natureza e função em seus desdobramentos. Assim a natureza da literatura pode ser normativa ou descritiva e as funções podem ser de estética, lúdica, cognitiva, catártica e pragmática.
(...) Segundo Eagleton (2000, p. 2) a literatura é mais o emprego da linguagem do que ficção ou imaginação. E com Culler observa-se que a literatura tem natureza de ser linguagem e ao mesmo tempo a integração desta com uso de melopédia como rimas, ritmo, metrificação, que são marcas relevantes da literariedade, Portanto “o objeto da ciência da literatura não é a literatura, mas a literariedade” (JAKOBSON 1971, p. 15), que assegura a definição de uma obra como literatura. Um exemplo disso ocorre com poema do modernista Manuel Bandeira: “Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos Clowns de Shakespeare”.
Observa-se que a métrica dessa estrofe é irregular, que não há rimas externas, mas então como é dizer que é literatura? Por um fator importante que se refere à linguagem, pois o poeta, nesse caso usou a anáfora para repetir a palavra lirismo a ponto de dessacralizá-lo; usou os ritmos ternário e quaternário para criar um efeito de dissonância com as estéticas anteriores como o Simbolismo e o Parnasianismo.
Esses artifícios fazem com que esse texto tenha natureza de literatura, contudo há a propaganda e alguns textos jornalísticos, que utilizam a Função Poética para causar efeitos de estranhamento da linguagem. Portanto para definir literatura é necessário atentar para a sua natureza, no tocante a linguagem e integração desta no texto. (...)
A literatura além de ter uma natureza, ela também tem função, ou melhor funções e desde a antiguidade, Aristóteles enaltecia a função da literatura, que para ele centrava-se no grau catártico. E segundo D’Onofrio (2002) as funções as literatura são “estética [arte da palavra e expressão do belo], lúdica [provocar um prazer], cognitiva[forma de conhecimento de uma realidade], catártica [purificação dos sentimentos] e pragmática[pregação de uma ideologia] (p.23).
Das funções da literatura, a estética é aquela, que cumpre o papel de fazer o ato de escrever literário diferente dos outros. Considera-se um texto como literário se ele cumprir a função de representar de forma artística o real. Na arte em geral a estética de um quadro ou de uma pintura depende da forma com que o artista combina as cores e as formas. Na literatura, combina-se forma e conteúdo. Para tanto o artista literário utiliza os mecanismos de cada gênero. Um gênero lírico distingue do dramático, não apenas por nomenclatura, mas pela forma e pelo conteúdo. No lírico há o emprego da percepção do eu poemático em relação ao real, em contrapartida no dramático some o eu-poemático e entra em cena a falas dospersonagens. A função estética muitas vezes ocorre pelo estranhamento que uma obra causa.
Observe os exemplos abaixo: “Discreta e formosíssima Maria/[...] Em tuas faces a rosa Aurora/[...] Oh não aguardes que a madura idade/Te converta essa flor, essa beleza/ Em terra, em cinza, em pó, em sombra/ em nada”. Nesse excerto do poema lírico A Maria de Povos, sua futura Esposa de Gregório de Matos é possível perceber a descrição da beleza feminina como forma estética, que se decompõe com o tempo.Contratando a vida e a morte.
No próximo texto de Guimarães Rosa, a função estética ocorre pelo tom filosofante, que a linguagem roseana adquire e que pode ser observada nesse excerto da obra Grande Sertão: veredas(1956). “Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece de religião: para se desendoidecer, desdoidar”. (p. 54) Tom este que discute temas universais e a função da religião para que o prefixo des seja elemento modificador do homem. Pela negação da verdade real, o homem utiliza o místico (religião). Os dois textos citados são exemplos de como a literatura defini-se não apenas como conceito, mas sim por funções que ela pode exercer como ocorre com a função lúdica.
Função lúdica da literatura ocorre por meio de um jogo, no qual o artista executa a literatura por prazer, que pode ser como forma de trabalho ou até mesmo como um passatempo, e o leitor sente o prazer de ler um texto. Essa via de mão dupla necessita de dois componentes: o emissor e o receptor para se realizar e eles não convivem simultaneamente. Contudo entre os dois ocorre um pacto. Às vezes o autor se distancia do leitor, em outras ele o traz para bem perto de si como ocorre com Machado de Assis, que em várias passagens diz ao leitor que a escrita é uma forma de passar o tempo. Ao mesmo tempo em que ele diz ser um jogo a arte de escrever, ele convoca o leitor para que este seja um leitor ruminante e possa assim digerir um texto de forma totalizante. Se um o leitor rumina um texto, logo abrir-se-á perspectivas cognitivas para o texto literário e uma das funções da literatura é ser cognitiva.
A função cognitiva evidencia que a alta literatura produz um certo grau de conhecimento, que é passado ao leitor, este por sua vez o incorpora no seu fazer diário, de tal forma que com o passar do tempo, sendo essas histórias matéria ficcional, elas não deixa de ser um conhecimento a ser repassado. Um exemplo desse tipo de função da literatura ocorre nesse excerto de O Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915): A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia[...] E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão [...] (p. 245).
O conhecimento sobre o personagem e a relação deste com o discurso sobre pátria não seria um saber a mais a ser incorporado pelo leitor? Seria sim e tanto que é feito que o discurso de Quaresma via carnavalização dos discursos de identidade passa a ser incorporado pelo leitor, abrindo várias perspectivas de leitura de uma obra. Às vezes a obra, além de despertar o leitor para o conhecimento, também executa uma outra função: a catártica.
A função catártica ou catarse, apontada por Aristóteles, é aquela que faz com que o leitor purifique os seus sentimentos ao se defrontar com uma obra literária. Isso ocorre por vários fatores e depende muito da vivência de leitura do leitor e da capacidade do escritor de aguçar a imaginação do leitor. Nas peças teatrais e no cinema, essa função atinge seu grau máximo pelo uso das faculdades de visão e audição, contudo nos textos literários é necessário que o escritor faça o leitor percorrer um caminho tortuoso até o conflito para tingir o máximo do grau catártico de uma obra. Alguns contos fazem isso como é o caso de Pai contra mãe de Machado de Assis, no qual para salvar o seu filho da fome, um caçador de recompensas entrega uma negra grávida e fugitiva. Ele a joga com tanta violência aos pés do dono, que ela ali na frente deles aborta a criança.
O efeito de catarse no leitor faz com que este avalie os valores referentes ao direito à vida e as ideologias que são pregadas pela humanidade. A função pragmática refere-se a uma outra característica da literatura que se centra na questão da capacidade da arte literária em pregar uma ideologia. Pregar uma ideologia em Literatura Brasileira tem ocorrido com mais frequência do que os leitores e críticos possam imaginar. Obras do Romantismo como Iracema (1857) de José de Alencar, cujo projeto era fazer um romance que contasse a origem do povo cearense, em termos do mestiço, o brasileiro, a fim de escrever um discurso de identidade nacional via entrelaçamento entre branco e índio. Nesta composse ideológica, o negro por ter transplantado e não elemento autóctone, não é figura nas obras de Alencar de fundação da nacionalidade brasileira.
No Modernismo a obra Macunaíma (1928) de Mário de Andrade prega um discurso ideológico voltado para a brasilidade via bricolagem das etnias e da cultura dos negros, brancos e índios, centradas em Macunaíma, que viaja pelo Brasil em busca de uma pedra mágica, ao mesmo tempo que encontra-se frente a frente com a descoberta de um Brasil discursivo centrada em lendas e contos sobre a terra e seus mistérios. Macunaíma não desvenda mistérios como os heróis medievais, mas os absorve, a fim de ser tudo e tudo ser ele.
A procura do significado da palavra literatura, talvez passe segundo Eagleton (2001) não pelo fato dela ser ficcional ou imaginativa, mas porque ela “transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana”. (p.2). Talvez seja por este caráter motor, que a literatura não necessita de definição, mas sim de mecanismos que demonstrem o que ela é e o que ela faz com temas, com ideologias, com as palavras e com a arte do homem em mimetizar o real.
O processo de transformar o real em ficcional passa pela natureza da literatura e das funções a ela atribuídas em cada situação. Em termos comuns seriam a massa e as formas, que se encaixam para a produção do alimento do espírito do homem, o texto.

BIBLIOGRAFIA
AGUIAR E SILVA, V. M. Teoria da literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1991.
CAIRO, L. R. V. “ História da Literatura Comparada e Crítica Literária: Frágeis Fronteiras
disciplinares.” In: Revista de Literatura comparada. México: Ciudade Universitária, 1997.
CULLER, J. Teoria literária. São Paulo: Beca, 1999.
D’ONOFRIO, S. Teoria do texto: prolegômenos e teoria da narrativa. 2.ed. São Paulo: Ática, 2002.
EAGLETON, T. Teoria da Literatura: uma introdução. 4.ed. Trad. Waltensi Dutra. São
Paulo: Martins Fontes, 2001.
MOISÉS, M. A Literatura Brasileira através dos textos. 23. ed. São Paulo: Cultrix, 2001.
PROENÇA FILHO. D. A linguagem literária. São Paulo: Ática, 2000.
RODRIGUES, A Medina (et alli) Antologia da Literatura Brasileira: textos comentados
do classicismo ao pré-modernismo. São Paulo: Marco Editorial, 1979.
SANTIAGO, S. Memórias do escrivão Isaías Caminha. 2. ed. São: Edusp. 1989.
SOUZA, R. A. Teoria da Literatura. 8.ed. São Paulo: Ática, 2000.
TAVARES, H. Teoria Literária. 12. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.

Leia este artigo na íntegra em:


1.3. FORMAS LITERÁRIAS: POEMA/PROSA

O POETA, A POESIA E O POEMA
Textos retirados de Poetas da Escola, uma coletânea didática elaborada pelo MEC para orientar a Olimpíada de Língua Portuguesa - 2010.
O Poema
O poema é criado como se fosse um jogo de palavras. Ele motiva o leitor a descobrir não apenas a leitura corrente, mas também a buscar outras leituras possíveis. E como o poeta faz isso? Ora... com as palavras e com tudo o que se pode fazer com elas.
O poeta busca mostrar o mundo de um jeito novo, com a intenção de sensibilizar, convencer, fazer pensar ou divertir os leitores. Ele sugere associações entre palavras, seja pela posição que ocupam no poema, seja pela sonoridade, seja por meio de outros recursos.   (18)
Poema ou poesia?
Qual é a diferença entre poema e poesia? O poema é um texto “marcado por recursos sonoros e rítmicos. Geralmente o poema permite outras leituras, além da linear”, pois sua organização sugere ao leitor a associação de palavras ou expressões “posicionadas estrategicamente no texto”. A poesia está presente no poema, assim como em outras obras de arte, “que, como o poema, convidam o leitor/espectador/ ouvinte a retornar à obra mais de uma vez, desvendando as pistas que ela apresenta para a interpretação de seus sentidos”. (22)
                  Norma Goldstein. Versos, sons, ritmos. 14a ed. São Paulo: Ática, 2006.          

O Poeta
O poeta é o artista que usa as palavras para fazer uma obra de arte – o poema. Ele sabe como combinar as palavras, como dar ritmo a essa combinação, como fazer com que elas conquistem e surpreendam o leitor. (20)
[...] é a lucidez da técnica e da experiência do poeta – técnica e experiência cuja aquisição exige anos de leitura e de aplicação quase diária ao ofício de escrever – que irá desenvolver as sugestões oníricas em poemas acabados e compreensíveis. Enquanto o sonho é pessoal e só comove ou impressiona quem o sonhou, o poema tem de comover e impressionar, se não todas as pessoas que o leem, pelo menos aquelas cuja sensibilidade foi aprimorada pela leitura regular de poesia. (20)
José Paulo Paes. Quem, eu? – Um poeta como outro qualquer. 5ª- ed. São Paulo: Atual, 1996.                        

Marisa Lajolo, no livro Palavras de encantamento, da Coleção Literatura em Minha Casa, nos fala de poetas, poemas e poesia: poetas da escola
 [...] poeta brinca com as palavras [...] parece que o poeta diz o que a gente nunca tinha pensado em dizer [...] [...] um poema é um jogo com a linguagem. Compõe-se de palavras: palavras soltas, palavras empilhadas, palavras em fila, palavras desenhadas, palavras em ritmo diferente da fala do dia a dia. Além de diferentes pela sonoridade e pela disposição na página, os poemas representam uma maneira original de ver o mundo, de dizer coisas [...] [...] poeta é, assim, quem descobre e faz poesia a respeito de tudo: de gente, de bicho, de planta, de coisas do dia a dia da vida da gente, de um brinquedo, de pessoas que parecem com pessoas que conhecemos, de episódios que nunca imaginamos que poderiam acontecer e até a própria poesia! [...] (21)
LAJOLO, Marisa. Palavras de encantamento: antologia de poetas brasileiros. v. 1. São Paulo: Moderna, 2001.                                 .                        

Então, essa é a diferença. Quando falamos em poema, estamos tratando da obra, do próprio texto. E, quando falamos em poesia, tratamos da arte, da habilidade de tornar algo poético. Uma pintura, uma música, uma cena de filme, um espetáculo de dança, uma obra de arquitetura também podem ser poéticos. Apesar da distinção, há pessoas que afirmam ler “poesias”, como se o termo fosse sinônimo de “poemas”.  (21)

Fonte:
POETAS DA ESCOLA. Caderno do professor: orientação para produção de textos. Coleção da Olimpíada de Língua Portuguesa. São Paulo: CENPEC, 2010.
Disponível em:
Acessado em: 2.6.2010



1.4. INTRODUÇÃO AO ESTUDO CIENTÍFICO DA OBRA LITERÁRIA
A TEORIA DA LITERATURA E OUTROS ESTUDOS LITERÁRIOS
Como a Análise, a Crítica e a Historiografia Literária, têm como objeto de estudo os fatos literários, algumas vezes a Teoria da Literatura foi confundida com estas disciplinas. Hoje, tal confusão não é admissível, pois sabemos que cada uma das disciplinas dos estudos literários tem, diante dos fatos literários, comportamento ou métodos de trabalho e objetivo específicos.  A Análise Literária se aplica a uma determinada obra e visa a explicar sua forma e seu conteúdo; a Crítica Literária também se aplica a uma determinada obra e visa determinar o seu valor de acordo com certos princípios e julgamentos estéticos. É exercida em três perspectivas:
A – impressionista: de acordo com um padrão de gosto estético universal.
B – sociológica: revela os fatores refletidos na obra. Negligencia o aspecto estético.
C – interna: exclui a analise do autor e influência social, focalizando exclusivamente os elementos linguísticos e de estrutura da composição. Observa apenas os aspectos formais.
A Historiografia Literária se ocupa de todos os fatos literários (de uma época, de um país ou de toda a humanidade) e visa a explicar sua evolução.
A literatura de um país é o conjunto de obras literárias escritas na língua desse país. Por isso, a História da Literatura é diferente da história das ideias, é diferente da sociologia, é diferente do estudo meramente histórico dos fatos, é diferente do estudo da psicologia. A sociologia, a história, a psicologia podem auxiliar no estudo de um texto literário.
Quais são os objetivos da historia da literatura? Estudando o conjunto de obras que constitui a literatura de uma nação, podemos conhecer a analisar:
A) A origem da literatura desse país;
B) Os temas dessa literatura;
C) A relação dos textos literários com a realidade histórica e social daquele país, uma vez que o homem é um ser histórico e sua produção cultural também é histórica.
A Teoria da Literatura, que também se ocupa de todos os fatos literários, procura neles o que tem de mais geral e, com essas generalidades, visa construir um sistema de teorias.
A Teoria da Literatura, portanto, não se confunde com os outros estudos literários; mas isto não significa que não mantenha com eles íntimas relações.
Destas noções, já podemos tirar as seguintes conclusões, indispensáveis à compreensão e à prática da Teoria da Literatura: 1º) diante de uma obra literária, podemos comportar-nos de dois modos: como leitor comum, interessado apenas no prazer e na utilidade intelectual da literatura ou da audiência dessa obra ou como profissional; 2º) comportando-nos como profissional, temos de nos definir por um tipo de estudo literário (Análise, Critica, Historiografia ou Teoria da Literatura; 3)º escolhido um desses tipos, tempos que saber qual seu objeto de estudo, seus métodos de trabalho e seus objetivos; 4º) escolhida particularmente a Teoria da Literatura, temos de saber que ela se ocupa de todos os fatos literários, formula teorias sobre os aspectos mais gerais desses fatos e organiza essa teoria num sistema.

PRINCÍPIOS EM QUE SE FUNDA A TEORIA DA LITERATURA
O estudo teórico de um fato literário pode ser feito em dois níveis de conhecimentos; o nível científico e o nível filosófico. No nível cientifico, o fato é analisado apenas nos seus aspectos analisáveis objetivamente, por exemplo: a forma ou a estrutura da obra literária; comportamentos de um leitor, ou do público por influência da obra literária, etc. No nível filosófico: a vocação literária, o ideal de belo literário; o estado emocional provocado por uma obra, etc.

OBJETOS DE ESTUDO
O objeto primordial de estudo da teoria da literatura é a obra literária, e os secundários são: o escritor, leitor, o publico (entidade coletiva), o meio ambiente cultural da obra e da historia literária de que ela faz parte. Esses objetos de estudo, uma vez analisados, revelam grande número de aspectos e de todos eles tem o teórico da literatura de extrair ideias gerais.

OBJETIVOS
O que visam os teóricos da literatura é formular um conhecimento organizado e em termos de ideias gerais, a respeito de todos os fatos literários, o primordial e os secundários, e oferecer, com esse conhecimento, que está em constante progresso, uma orientação aos demais estudos literários. Com razão, portanto, se diz eu a Teoria da Literatura é uma introdução aos estudos literários, e por esse motivo é ela ensinada em todos os cursos de literatura, como uma espécie de propedêutica desses cursos.
Fonte: AMORA, Antonio Soares. Introdução à Teoria Literária. São Paulo: Cultrix.


1.5. A PERSPECTIVA INTRÍNSECA E EXTRÍNSECA NO ESTUDO DA OBRA LITERÁRIA

Afrânio Coutinho toma a Literatura, nestes textos introdutórios, a partir de sua argumentação apresentada, em duas distintas linhas e concepções de literatura: 01 - Literatura, como consequência de fatores histórico-sociais e culturais, que a condicionam e determinam-na, em foco estão os fatores extratextuais / extrínsecos e secundários; 02 - Como manifestação de natureza estéti­ca, independente de fatores contextuais extrínsecos existentes, em evidência, estão os aspectos intrínsecos e estéticos. Esta primeira concepção de Literatura exposta diz respeito a uma historiografia literária, que demonstra o objeti­vo de observar a literatura, tendo em vista os fatores externos histórico-culturais, que a condicionaram e formaram-na. Por outro lado, a segunda concepção sobre a Literatura ressalta uma perspectiva e modelo historiográfico voltado e preocupado com o processo evolutivo interno do fenômeno literário-artístico, enquanto uma criação imaginária, estética e artística, que possui “um valor em si” imanente, “um produto da imaginação criadora”, “cuja finalidade é despertar no leitor ou ouvinte o prazer estético”. Segundo Afrânio Coutinho, entendem-se o “conceito estético ou poético” da literatura e a finalidade da crítica estética, na obra organizada, como:
A literatura é uma arte, a arte da palavra, isto é, um produto da imaginação criadora, cujo meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar no leitor ou ouvinte o prazer estético. Tem, portanto, um valor em si, e um objetivo, que não seria de comunicar ou servir de instrumento a outros valores - políticos, religiosos, morais, filosóficos. Dotada de uma composição específica, que elementos intrínsecos lhe fornecem, tem um desenvolvimento autônomo. A crítica é, sobretudo, a análise desses componentes intrínsecos, dessa substância estética, a ser estudada como arte e não como documento social ou cultural, com um mínimo de referência ao ambiente sócio-histórico. [7]
Afrânio Coutinho, idealizador de A Literatura no Brasil, pretende abordar, na configuração de sua história literária, certamente, a segunda concepção, tentando construir uma obra e um discurso sobre a literatura brasileira, que se debrucem sobre “seus elementos intrínsecos ou artísticos” [8]. A fim de expor e delimitar os métodos de análises da obra literária enquanto objeto estético, Afrânio Coutinho demonstra o que são elementos intrínsecos e extrínsecos do “fato literário”, da “natureza estética”, em A Literatura no Brasil:
Com ser de natureza estética, o fato literário é histórico, isto é, acontece num tempo e num espaço determinados. Há nele elementos históricos, que o envolvem como uma capa e o articulam com a civilização - personalidade do autor, língua, raça, meio geográfico e social, momento; e elementos estéticos, que constituem o seu núcleo, imprimindo-lhe ao mesmo tempo características peculiares, que o fazem distinto de todo outro fato da vida: tipo de narrativa, enredo, motivos, ponto de vista, personagem, linha melódica, movimento, temática, prosódia, estilo, ritmo, métrica, etc. (...) Esses últimos elementos formam o ‘intrínseco’, enquanto os primeiros formam o ‘extrínseco’. [9]
LEAL, Flávio. Afrânio Coutinho: À luz de uma teoria estética da história da literatura. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia. IFBahia - Brasil
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[7] COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana. S.A.,1955. p. 71. [8] Ibidem. p. 23.[9] Ibidem. p. 22.


1.6. GÊNEROS LITERÁRIOS
                                 Autora: Helena Parente Cunha - Resenha por Heloisa Amaral
Nos últimos anos, a teoria dos gêneros de discurso inspirada nas reflexões de Bakhtin e outros, vêm alimentando a discussão sobre ensino de língua no Brasil e em outros países. Nessas discussões, são documentos de referência os PCN de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental e Médio. Neles, o conceito de gênero de discurso é discutido para além do que já era conhecido e utilizado na escola até então, ou seja, para além dos gêneros literários. Como os PCN enfatizam a necessidade de diversificar o ensino de gêneros na escola (necessidade que a equipe de trabalho da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro confirma), o risco que se corre é o de “esquecer” a importância do ensino de literatura para a formação humana.
Pretendemos trazer para discussão, nas próximas semanas, o ensino de gêneros literários. Por isso, consideramos importante retomar a história desse conceito. Encontramos um artigo que explora o assunto com propriedade e linguagem de fácil entendimento, escrito por Helena Parente Cunha e publicado em Os gêneros literários.
Nesse artigo, a autora retoma o conceito a partir de sua origem, os estudos dos filósofos Platão e Aristóteles na Grécia Antiga, cerca de quinhentos anos Antes de Cristo. Vê-se que a discussão acompanha a História da humanidade desde seus primeiros registros escritos. Esses filósofos foram os primeiros a classificar os gêneros literários, agrupando-os em gêneros narrativos divididos em os épicos e dramáticos. Essa classificação foi discutida e reformulada ao longo de mais de dois mil anos, o que trouxe para seu estudo complexidade e profundidade. Na época do Renascimento (séculos XIV e XVI), estudiosos acrescentaram aos dois grandes gêneros narrativos um terceiro grupo, o dos gêneros líricos, no qual se classificam os gêneros poéticos.
Os resultados desse longo estudo apresentam grandes controvérsias, mas continuam sendo indispensáveis para a compreensão de como podemos organizar o estudo e o ensino dos gêneros literários. De acordo com a autora, é possível continuar usando a antiga classificação se considerarmos que a designação de cada um dos três grupos pode ser vista como substantiva e como adjetiva:
Se adotarmos a divisão tripartida - lírico, épico e dramático - como encaixar nesses três compartimentos a multiplicidade da produção literária? Como classificar certos contos que adotam o procedimento do puro diálogo, peculiar à obra dramática? E certas composições dramáticas onde apenas comparece uma personagem em extenso monólogo? E as obras líricas de cunho narrativo ou em diálogo, ou ainda quando a emoção cede à reflexão? Não teria sentido instituir novas divisões, que cresceriam ilimitadamente, tal a desconcertante diversidade das obras. Como agir diante do impasse? (...) Os substantivos Lírica, Épica e Drama referem-se ao ramo em que se classifica a obra, de acordo com determinadas características formais. Os poemas de breve extensão que expressam estados de alma, se enquadram na Lírica. O relato ou apresentação de uma ação pertence à Épica, enquanto a representação da ação, movida por um dinamismo de tensão, se situa no Drama. Os adjetivos lírico, épico e dramático definem a essência, isto é, os traços característicos da obra, manifestados por seus fenômenos estilísticos.
A autora, em seu artigo, prossegue buscando uma classificação orientadora e indica como pertencentes à Lírica, por exemplo, o soneto, a ode, a balada; como parte da Épica, a epopeia, o romance, a novela, o conto; como parte do drama, a tragédia, a comédia, a tragicomédia e a farsa.
No decorrer do artigo, a autora aprofunda especialmente o estudo dos gêneros líricos e épicos. Uma distinção que faz entre eles é que:
As obras líricas resultam da fusão entre o eu e o mundo, ao passo que as épicas se caracterizam primeiramente por um distanciamento entre o sujeito (narrador) e o objeto (mundo narrado). Convém ter em mente que todas as vezes que nos referimos a sujeito, eu, narrador, autor, objeto, mundo, tratamos de entidades fictícias do universo imaginário da obra literária. Enquanto o poeta lírico exprime seus estados de alma, envolvendo-se no que diz, o narrador se coloca numa situação de confronto em relação àquilo que conta. Ao invés da imprecisão de contornos do estado lírico, o mundo se firma e se oferece à perspectiva do narrador como ob-jeto, ou seja, etimologicamente, colocado em frente. A categoria do distanciamento instaura aqui um defrontar objetivo, estranho à essência lírica.
A leitura do artigo completo é interessante para dar fundamento às nossas escolhas de gêneros literários a serem trabalhados na escola.
Publicado em: 20/08/2009
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1.7. VERSIFICAÇÃO
Versificação, arte de fazer versos ou teoria da estrutura fonética do verso. Considera as características fonéticas em si ou em relação aos demais elementos do poema. Teoricamente, as características fonéticas de uma língua - número de sílabas em uma emissão, graus de intensidade, tempo gasto para emiti-las etc.- podem constituir um modelo ordenado e simétrico. O estudo da versificação na poesia das diferentes línguas, e em diferentes períodos, leva em conta estas possibilidades, não esquecendo que existem diferentes sistemas de métrica (a grega e a latina) baseados em critérios quantitativos ou o sistema acentual e o silábico.
O menor segmento quantitativo da linguagem rítmica é um pé, que tem por base um tempo forte ou marcado (arse).  (...)
                        Mas foram inventados outros tipos de versos, mistos ou compostos, que receberam por vezes o nome de seus criadores: adônio, alcaico, anacreôntico, arquilóquio, aristofânio, sáfico, sotadeu. O estudo da versificação teve grande importância para os gregos. O rápido desenvolvimento da poesia e da música gregas - e a importância destas artes na educação - fizeram com que, por volta do século IV a.C., já houvesse um sistema fonético estabelecido, com os princípios básicos do ritmo, os tipos de metro quantitativo analisados e verificada sua adequação aos diferentes gêneros literários, bem como exploradas as possibilidades matemáticas e psicológicas do verso e da música. A versificação portuguesa procede da greco-latina, mas não conta as sílabas longas e breves conforme a quantidade. Adotou um outro esquema, silábico-acentual, com outros recursos, tipo a rima, a aliteração, etc, designando os versos conforme tenham sua base morfológica na duração, na quantidade de sílabas que o compõem, no número delas ou no esquema de acentos. A metrificação estuda, assim, a medida dos versos, a contagem de sílabas poéticas que são sonoras, sendo sua contagem feita de maneira auditiva, diferente da gramatical, que considera o número de silabas gráficas, por exemplo:
 
               "Ah!/ quem/ há /de-ex /pri/mir,/al/ma-im/po/ten/te-e-es/cra/va         
  (Olavo Bilac)
Neste verso haveria 17 sílabas gramaticais, mas há apenas 12 sílabas poéticas, pois são contadas apenas até a última sílaba tônica do verso, incluindo as sinalefas ou encontros vocálicos de uma sílaba final com a inicial da palavra seguinte. (...)
Os versos são quase sempre nomeados a partir do número de sílabas poéticas: monossílabos, dissílabos, trissílabos, tetrassílabos, pentassílabos (também chamados redondilha menor), hexassílabos, heptassílabos (redondilha maior), octossílabos, eneassílabos, decassílabos (que pode ser heróico, com acentuação na 6ª e 10ª sílabas; ou sáfico, com acentuação na 4ª, 8ª e 10ª sílabas), hendecassílabos, dodecassílabos (ou alexandrinos, com acentuação na 6ª e 10ª, no caso do alexandrino clássico; e na 4ª, 8ª e 10ª ou na 3ª, 6ª e 12 ª sílabas, no caso do alexandrino moderno).
Com mais de 12 sílabas são denominados versos ou metros bárbaros. Também costumam ser chamados de arte menor os versos de até sete sílabas e arte maior os demais. Verso livre é o que não obedece a qualquer exigência métrica, apesar de ter ritmo. Quando um verso não finaliza juntamente com um segmento sintático e o sentido de uma frase é interrompido no final de um verso, completando-se no seguinte, dá-se o chamado encavalgamento (enjambement):

"Hoje tenho um amor e me faço espaçoso para arrecadar as alfaias de muitos amantes desgovernados.
No mundo, ou triunfantes. E ao vê-los amorosos e transidos em torno, o sagrado terror converto em jubilação.”
(Carlos Drummond de Andrade)

Os agrupamentos de versos formam as estrofes, que podem ser classificadas quanto ao número de versos em monóstico (estrofe com um verso); dístico (com dois) e assim por diante: terceto, quadra ou quarteto, quintilha, sextilha, septilha, oitava, nona e décima. Há certos tipos de poema, como a balada ou o rondó, que apresentam, ao final das estrofes, versos que se repetem: são chamados de estribilho ou refrão.
Ritmo e pausas - o ritmo do verso se cria pela sucessão de sílabas acentuadas e não acentuadas. Pode se referir à intensidade dos fonemas (ritmo acentual) ou a sua duração (ritmo quantitativo) ou a seu timbre (ritmo qualitativo). Para alguns, o esquema acentual obrigatório, que leva à queda necessária da voz nas pausas, seria a cadência que outros confundem com a própria noção de ritmo. Conforme se componha de períodos iguais ou desiguais, o ritmo pode ser regular, uniforme ou complexo. No ritmo se levam também em conta as pausas, as cesuras, as rimas, e outros elementos que concorrem para a modulação dos versos. A pausa maior é a que se dá ao final de cada estrofe ou de trecho importante da mesma. A pausa média se dá na metade das estrofes simétricas, como a oitava, exigindo, portanto, que o sentido aí esteja completo. A pausa menor assinala o fim de cada verso ou de cada cesura. A cesura é um corte que se observa como elemento estrutural de certos versos, separando-os em hemistíquios. Diz-se masculina quando ocorre depois da sílaba tônica ou longa, e feminina quando depois da breve, não-acentuada. Nos alexandrinos que se seguem, a cesura é feminina no primeiro e masculina no segundo:
Enfermos e feri / dos entendia curar contra a letra da lei. Não pára aí o horror... 
(Castro Alves)
A pausa final é menos nítida quando há encavalgamento. Diz-se de pé quebrado o verso incompleto, ou de cadência deficiente, quebrando as normas dos demais na mesma estrofe ou no mesmo poema:
Soltando o cabelo de ouro ao deitar-se, ondeante e farto,
viu Berta entrar-lhe no quarto um besouro.

A poesia moderna desafiou não só as convenções das normas tradicionais como, não raro, a própria ordem de "respiração" do poema, transgredindo, inclusive, limites morfológicos e sintáticos.
Rimas, concordância de sons finais entre um verso e outro ou internamente, no corpo do mesmo verso. Há os que a consideram indispensável, dado o seu valor plástico e rítmico. Outros não lhe atribuem maior valor, como no caso da poesia moderna, mais liberta de convenções e regras. Há leis da rima, entre as quais a da alternância que proíbe aproximar consecutivamente rimas de mesma acentuação - agudas, graves ou esdrúxulas - e a da não-assonância, que proíbe aproximar rimas da mesma vogal tônica. E ainda normas ou recomendações: evitar repetir a rima, com a mesma palavra no mesmo sentido; evitar a rima entre verbos na mesma pessoa e tempo; evitar a rima com palavras da mesma forma de derivação etc...
Os versos que não rimam chamam-se brancos ou soltos. As rimas, por sua vez, têm classificações especiais. Segundo o vocabulário usado, são pobres, ricas ou raras; segundo a extensão, toantes, consoantes, opulentas, imperfeitas; segundo a acentuação, agudas, graves, esdrúxulas; segundo a disposição, continuadas, emparelhadas, cruzadas, opostas, alternadas, intercaladas, misturadas, encadeadas, entrelaçadas, internas. Dois exemplos:
Continuadas:
"Ó tristeza sem fim deste dia de agosto!
É como um dia que nascesse de um sol-posto:
um dia já vivido, um dia já transposto
há muito, muito tempo...um dia decomposto
cadáver de outro dia - a apodrecer exposto
ao sol profanador de outro dia disposto
a ser útil e belo; um dia recomposto,
feito do que ficou de outros dias de desgosto.  (Guilherme de Almeida).

Encadeadas:

Amanhã é domingo, pé de cachimbo
toca a gaita, repica o sino, e dá no menino.
                                                                                                        (Parlenda popular)

Valores fonéticos, além da rima, existem outros recursos destinados a enriquecer a sonoridade do poema, dar ênfase a alguma ideia ou atmosfera a uma emoção. Pois a musicalidade do poema reside não só na frequência dos acentos rítmicos, como na repetição de determinados sons.
A aliteração, repetindo consoantes, vogais ou sílabas, trabalha a sequência de fonemas idênticos ou semelhantes, dentro da mesma unidade poética, causando um efeito de harmonia imitativa:
As ondas roxas do rio rolando a espuma batem nas pedras da praia o tapa claro...                                                                                                          
                                 (Augusto Meyer)
A onomatopeia resulta de palavras cujo som imita ruídos ou vozes da natureza (ronronar, sussurro) ou dá ideia aproximada do objeto ou ação de que se fala:
Vamos ver quem é que sabesoltar fogos de São João?
Foguetes, bombas, chuvinhas, chios, chuveiros,
chiando chiando chovendo chuvas de fogo! Chá-bum!  (Jorge de Lima)

Norma ou liberdade, o conhecimento da tradição poética permite avaliar os recursos e possibilidades de crescimento da língua, através das vozes individuais dos poetas e das experiências e descobertas das escolas e movimentos. A poesia contemporânea continua a experimentar novas formas que não implicam negação ou anulação das anteriores, mas visam a enriquecer a história da poesia. Formas ainda não codificadas, correlação da poesia com outras artes (a arte conceitual, por exemplo), mudanças na composição e nos hábitos auditivos musicais (John Cage, Luciano Berio, Luigi Nono) geram um desafio novo: o de enumerar, registrar e elaborar todos estes caminhos, que representam também uma ampliação da teoria e da arte de fazer versos.
Disponível:
Encarta. Versificação. In: Encyclopedia. Microsoft Corporation, 2002.