25 de abril de 2016

O OLHAR CONTEMPORÂNEO DA TOLERÂNCIA E DA DIVERSIDADE


Admmauro Gommes
Escritor, Diretor da FAMASUL/
Palmares (PE)
     Quanto mais a civilização se aperfeiçoa em tecnologia, mas as diferenças sociais aumentam. Não é que uma tenha a ver diretamente com a outra, porém elas se destacam ao mesmo tempo, nos dias atuais. Neste meio, a divulgação dos contrastes socioeconômicos se acentua pela mídia e pela moda e assim ganham projeção distorcida.
Infelizmente, no contexto que se apresenta, a intolerância é a marca de nosso tempo. Cada vez mais, grupos extremistas se renovam no cenário internacional. E nós, sem sermos extremistas, também temos uma parcela diária de incentivo à exclusão. Quando lutamos por um espaço no meio social, e somos minoria, achamos que é retaliação ou discriminação a oposição que sofremos. Mas se o caso é com os outros, consideramos que tudo está dentro da normalidade. Daí uma falsa sensação de que somos os melhores, em relação aos grupos que se nos opõem, pelo pensamento ou pelas diversas práticas sociais.
Não obstante, é preciso que tenhamos lado. Não da esquerda nem da direita, mas do centro, da imparcialidade. Neste caso, vale lembrar o que disse Evelyn Beatrice Hall (ilustrando as crenças de Voltaire): "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las." Esta garantia que se dá ao outro, é fundamental para a permanência da paz entre os povos.
Quem já pertenceu à minoria e hoje não pertence mais, devia ter redobrada tolerância com os novos excluídos, mesmo que isso represente uma opinião contrária a sua. Até porque, a livre expressão do pensamento apoia-se na Constituição Federal. Embora a lei propague a igualdade, não é necessário que todos sejam iguais a nós, mas que consideremos a maneira de viver e pensar dos demais.
Por certo, o bom senso contemporâneo aponta para a tolerância em todos os sentidos para que haja uma convivência pacífica, na diversidade. Não que se deva associar às ideias alheias e divergentes da concepção de mundo que temos, nem defendermos pensamentos e maneiras estranhas ao nosso modus vivendis. Contudo, seguir o pensamento de Evelyn (sobre Voltaire), parece ser o caminho do centro, do equilíbrio e da promoção da paz.
A diversidade, enfim, está na concepção da natureza, que fez os nossos semelhantes tão diferentes. Aliás, se todos fossem modelos iguais a nós mesmos, “a coisa não prestava.” Por um simples motivo: Somente nós sabemos os defeitos e as desvirtudes que possuímos. Ainda toleramos os outros porque pensamos que eles não têm os defeitos que temos.


Comentário de Cida Vilas Boas
Admmauro, dizer que seus textos são admiráveis, reflexos de uma inteligência privilegiada é eufemismo. Eles são claros, diretos, sem subterfúgios ou adornos.
Você já é um requintado professor com ensinamentos que percorrem o mundo e seus textos são esclarecedores em coisas simples, mas que passam despercebidos numa leitura despreocupada, coisas que não paramos para decifrar.
Mas, "Decifrar a tolerância" no mundo onde a diversidade é alarmante, é coisa para pensadores de altíssimo quilate, como você, amigo.
Tudo bem. Nada disso é novidade. Vamos ao que me leva a redigir este meu comentário: Um trecho de seu discurso me pegou desprevenida: Sabedoria X ignorância (claro, a sua e a minha). 
Quando você cita Evelyn Beatice, ao comentar Voltaire, em parágrafo seguinte, diz o que me chamou mais a atenção: "...a livre expressão do pensamento apoia-se na Constituição Federal". Está aí a grandeza que eu não havia decifrado neste capítulo, ou inciso, de nossa Constituição (não sou boa em quase nada, mas em leis, sou nula). 
"Todos são iguais perante a lei". Vivo lembrando a todos quando vejo injustiças mas me detinha em direitos jurídicos, religiosos, físicos etc, mas nunca havia atentado ao significado mais profundo e talvez o mais simples de todos que é o respeito à maneira de pensar e viver dos nossos semelhantes.
Aprendi com vc essa faceta da lei da igualdade. Você falou TUDO.
Abraços. 
AgradeCIDA.




Comentário de Maria José de Oliveira Costa 
Muito adequado o tema que nosso amigo Admmauro Gomes abordou. Pela dificuldade dos tempos em que vivemos, em que a moral, os bons costumes e o respeito estão tão banalizados. Tempos em que estão gritando aos quatro ventos: "vocês têm que nos engolir," e o pior, engolir sem fazer careta, quanto mais falar!
Mas, como bem pode ter sido de Voltaire a sábia frase: " POSSO NÃO CONCORDAR COM NENHUMA DAS PALAVRAS QUE VOCÊ DISSER, MAS DEFENDEREI ATÉ A MORTE O DIREITO DE VOCÊ DIZÊ-LAS," nos concedemos o pleno direito de também defender até a morte o direito de expor nossa maneira de pensar. Afinal, não dá para calar, pois um velho dito afirma que 'quem cala consente.' Que seria das famílias brasileiras se não houvesse pastores que, histéricos ou não, alçassem sua voz, na bancada evangélica, na Câmara de Deputados, para barrar as leis que sorrateiramente vão sendo lançadas?
Evidentemente, não tenho a habilidade do amigo Admmauro para colocar meus pensamentos, e nem penso tanto assim. Mas agradeço a ele por nos instigar a formular opiniões.
Você é bom em tudo que se propõe a fazer Admmauro! Parabéns!
Sua amiga, Maria Professora.


Comentário de Caio Vitor Lima     
Concordo que temos que ter um lado e que devemos respeitar o direito do outro de também pertencer a um lado. Mas não concordo que o lado do "meio", da "imparcialidade" seja uma opção viável. E não o é porque a imparcialidade simplesmente não existe, é uma quimera dos que pensam ter uma visão ampla e pragmática da realidade.
O exercício do distanciamento é necessário à direita ou à esquerda, pois gera senso crítico em relação ao próprio posicionamento político-ideológico, mas defender um ponto de vista sobre modelo de mercado, de política, de sociedade, de religião, de laicidade, etc, inevitavelmente leva o indivíduo a um lugar não neutro e orientado a um dos lados da moeda: uns mais moderadamente, outros com radicalismos. E essa ideia "voltairiana" de defender até a morte o direito do outro de ter e expor um ponto de vista é perigoso.
Como posso, por exemplo, defender o direito de alguém em expor a opiniões racistas com relação aos negros? Ou que homossexuais não devem ter o direito civil ao casamento igualitário, um direito cidadão, com os absurdos argumentos de que não podem constituir família por não reproduzirem, por ser contra a moral cristã, ou por serem más influências sexuais aos filhos (como se a heterossexualidade dos pais influenciasse a sexualidade deles), dentro do contexto da laicidade do Estado? Como posso defender o direito de um deputado federal de homenagear um torturador da Ditadura Militar como herói da pátria, sendo a tortura um crime deplorável, condenado por cortes internacionais de direitos humanos?
Não, não se deve defender o direito ao discurso racista, misógino, homofóbico, em quaisquer de suas faces; não se deve lutar em prol do discurso da intolerância religiosa, ou de golpistas de um governo legitimamente eleito, como aconteceu no Egito há dois anos e acontece hoje no Brasil. Esses discursos podem - e devem ser - combatidos nas redes sociais, no espaço acadêmico, na roda de amigos, nos programas de TV e rádio sempre que ferirem a ética e a dignidade humana. 
Ter uma opinião sobre o que quer que seja é valioso, mas há o limite entre o diferente e o desrespeitoso, entre a discordância e o direito de existir das minorias, entre a opinião e o crime. Discutir é saudável e democrático, mas quando o discurso estimula a violência ao outro, deve ser combatido nas formas que a lei autoriza.


2 comentários:

  1. Maria José de Oliveira Costa27 de abril de 2016 15:14



    Muito adequado o tema que nosso amigo Admmauro Gomes abordou. Pela dificuldade dos tempos em que vivemos, em que a moral, os bons costumes e o respeito estão tão banalizados. Tempos em que estão gritando aos quatro ventos: "vocês têm que nos engolir," e o pior, engolir sem fazer careta, quanto mais falar!


    Mas, como bem pode ter sido de Voltaire a sábia frase: " POSSO NÃO CONCORDAR COM NENHUMA DAS PALAVRAS QUE VOCÊ DISSER, MAS DEFENDEREI ATÉ A MORTE O DIREITO DE VOCÊ DIZÊ-LAS," nos concedemos o pleno direito de também defender até a morte o direito de expor nossa maneira de pensar. Afinal, não dá para calar, pois um velho dito afirma que 'quem cala consente.' Que seria das familias brasileiras se não houvesse pastores que, histéricos ou não, alçassem sua voz, ns bancada evangélica, na Câmara de Deputados, para barrar as leis que sorrateiramente vão sendo lançadas?


    Evidentemente, não tenho a habilidade do amigo Admmauro para colocar meus pensamentos, e nem penso tanto assim. Mas agradeço a ele por nos instigar a formular opiniões.
    Você é bom em tudo que se propõe a fazer Admmauro! Parabéns!

    Sua amiga,
    Maria Professora.

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  2. Concordo que temos que ter um lado e que devemos respeitar o direito do outro de também pertencer a um lado. Mas não concordo que o lado do "meio", da "imparcialidade" seja uma opção viável. E não o é porque a imparcialidade simplesmente não existe, é uma quimera dos que pensam ter uma visão ampla e pragmática da realidade.

    O exercício do distanciamento é necessário à direita ou à esquerda, pois gera senso crítico em relação ao próprio posicionamento político-ideológico, mas defender um ponto de vista sobre modelo de mercado, de política, de sociedade, de religião, de laicidade, etc, inevitavelmente leva o indivíduo a um lugar não neutro e orientado a um dos lados da moeda: uns mais moderadamente, outros com radicalismos. E essa ideia "voltairiana" de defender até a morte o direito do outro de ter e expor um ponto de vista é perigoso.

    Como posso, por exemplo, defender o direito de alguém em expor a opiniões racistas com relação aos negros? Ou que homossexuais não devem ter o direito civil ao casamento igualitário, um direito cidadão, com os absurdos argumentos de que não podem constituir família por não reproduzirem, por ser contra a moral cristã, ou por serem más influências sexuais aos filhos (como se a heterossexualidade dos pais influenciasse a sexualidade deles), dentro do contexto da laicidade do Estado? Como posso defender o direito de um deputado federal de homenagear um torturador da Ditadura Militar como herói da pátria, sendo a tortura um crime deplorável, condenado por cortes internacionais de direitos humanos?

    Não, não se deve defender o direito ao discurso racista, misógino, homofóbico, em quaisquer de suas faces; não se deve lutar em prol do discurso da intolerância religiosa, ou de golpistas de um governo legitimamente eleito, como aconteceu no Egito há dois anos e acontece hoje no Brasil. Esses discursos podem - e devem ser - combatidos nas redes sociais, no espaço acadêmico, na roda de amigos, nos programas de TV e rádio sempre que ferirem a ética e a dignidade humana.

    Ter uma opinião sobre o que quer que seja é valioso, mas há o limite entre o diferente e o desrespeitoso, entre a discordância e o direito de existir das minorias, entre a opinião e o crime. Discutir é saudável e democrático, mas quando o discurso estimula a violência ao outro, deve ser combatido nas formas que a lei autoriza.

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